Geral

27/03/2021 10:42

UM ANO DE BATALHA

“Tinha amigo que vendia equipamento para pagar o aluguel”, relata músico

ANNA CAROLINA AZÊDO / JORNAL A GAZETA

Músico são-bentense fala sobre as dificuldades da classe durante a pandemia

André Lima - andre@gazetasbs.com.br

São Bento do Sul

Com o violão na mão e um microfone posicionado de forma estratégica, o músico Angelo Souza começa a transmissão com bom humor. “E aí, boa noite! Vamos chegando para a gente começar a nossa baguncinha de sexta-feira”, fala, enquanto termina de se preparar para o show. Ele está sentado em um banco com o instrumento no colo, enquanto atrás há apenas um fundo azul infinito.

Além do cenário isolado, o público do show se reúne de uma forma diferente, cada um em seu próprio celular. Um a um, Angelo lê os comentários em voz alta, respondendo aos cumprimentos e interagindo com a audiência. Não é a mesma energia de estar nos palcos, mas foi a alternativa encontrada para superar aquele período de isolamento.

Antes de começar a falar sobre as transmissões, você precisa entender que o ano de 2020 foi atípico para Angelo e a Jardim Elétrico, banda a qual faz parte. No final de janeiro, o guitarrista Marcelo Rogério Pereira faleceu aos 50 anos, vítima de uma parada cardiorrespiratória. Como já haviam diversos eventos agendados para os próximos meses, mesmo enlutados eles decidiram cumprir com a agenda e só então discutir o que fariam com o grupo musical.

No fim de semana do dia 14 de março, a Jardim Elétrico se apresentou por duas noites na Festa da Ovelha, um dos últimos eventos presenciais a ser realizado em Campo Alegre antes da pandemia do coronavírus trazer impactos para Santa Catarina. Três dias depois, veio a notícia de que tudo estaria fechado e os eventos estavam proibidos por tempo indeterminado. “Foi um momento bem tenso, porque ninguém sabia o que ia acontecer. Estava todo mundo assustado”, lembra Angelo.

Com o novo cenário se desenhando, Angelo ficou sem saber o que fazer. “Foi uma pena, porque com a música a gente leva alegria para as pessoas. É um trabalho bem legal que a gente se diverte com as coisas, e são poucos trabalhos que têm dessa alegria”, descreve. Foi a partir da falta deste sentimento que ele decidiu iniciar as transmissões ao vivo. Foi nelas que o músico viu a oportunidade de entreter e animar a região.

Estúdio improvisado

O primeiro passo foi improvisar um estúdio na sua casa. Além disso, Angelo precisou aprender a mexer com os softwares de transmissão, no intuito de não deixar o trabalho tão amador. No começo seu objetivo era claro: entretenimento. Porém, um tempo depois o projeto começou a tomar outros rumos e deixou de ser uma simples brincadeira.

Amigos começaram a procurar Angelo para oferecer produtos para serem sorteados, o que passou a atrair ainda mais público para as lives. A rotina também ficou agitada, com uma média de três transmissões por semana e um público variando entre 200 a 300 espectadores no ao vivo. Mesmo longe dos palcos, Angelo passou a encontrar uma nova forma de interagir com a sua audiência. Até que chegou num ponto em que as lives “encheram o saco”.

Angelo chegou a promover três lives por semana

“Chegou num ponto que eu vi que perdeu o objetivo que era entreter e o pessoal só queria saber dos prêmios”, lembra Angelo. Naquele ponto, ele precisou refletir se reinventava o programa ou se encerrava de vez. Ao mesmo tempo que fazia suas lives, Angelo estava conseguindo destacar seu trabalho com design e marketing, enquanto as transmissões não estavam rendendo um retorno tão bom quanto o esperado. “Meu trabalho me chamou”, justifica Angelo quando decidiu parar com as lives.

A carreira musical de Angelo começou como uma brincadeira. Foi em um trabalho da escola que ele começou a tocar, até começar a se apresentar em barzinhos da região, em meados de 1991. Nesse meio tempo ele entrou na banda Jardim Elétrico onde assumiu por anos a posição de vocalista e baixista. O grupo fazia de três a quatro shows por mês, em diversas cidades da região sul. Foi só nos últimos quatro anos que Angelo começou a investir em seu trabalho solo, mas sem deixar de lado sua formação em Design.

Falta conscientização

Com o tempo, os decretos com restrições começaram a ser flexibilizados. Quando a música ao vivo foi liberada em bares e restaurantes da região, Angelo não voltou para os palcos de imediato. “Tinha amigo meu que vendia equipamento para pagar o aluguel, então resolvi não ir atrás para dar uma chance para a galera que vive disso. E eu tenho meu trabalho com design, não vivo só disso”, conta. Ele ficou alguns meses sem tocar, até que começou a ser procurado para fazer as apresentações.

De volta aos palcos, quase um ano depois do início da pandemia, Angelo ainda segue rigorosamente os protocolos, principalmente por cuidar de seus pais que fazem parte do grupo de risco. Apesar disso, o que ele tem observado em suas apresentações deixam o músico receoso e assustado. Isso tudo devido à falta de cuidado das pessoas. “Por mais que a gente esteja sendo bombardeado todos os dias com notícias de protocolos, o que não fazer durante a pandemia, ainda têm pessoas que não estão dando atenção. Isso é muito preocupante porque nos mostra esse resultado que tá aí: recorde de casos, recorde de mortes por dia”, aponta.

Angelo ainda faz um pedido. “Cuidem-se porque isso não é brincadeira, é algo sério e está levando tudo ao colapso. Se o pessoal tivesse mais consciência, estaríamos em um estágio diferente”, encerra.


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