Geral

10/09/2020 12:48

SETEMBRO AMARELO

Tabus e preconceito dificultam que o tema suicídio seja abordado com clareza

Gabriela Weihermann* - gabiweihermann@hotmail.com

São Bento do Sul

O suicídio é uma realidade bem mais comum do que imaginamos e vem chamando a atenção de toda a sociedade, trata-se de um assunto delicado! O mês de setembro, conhecido como Setembro Amarelo, é dedicado à conscientização sobre a importância da prevenção ao suicídio.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), 90% dos casos de suicídio poderiam ser evitados. Infelizmente o estigma e o tabu relacionados em torno de transtornos mentais e suicídio, faz com que muitas pessoas que estão pensando em encerrar suas próprias vidas ou que já tentaram suicídio em outra ocasião não procurem ajuda. Para falarmos sobre esse assunto convidei hoje a psiquiatra Dra. Flávia Tanaka.

Gabriela: Há muito tabu e preconceito em relação ao suicídio. Isso dificulta que o tema seja abordado de maneira mais clara e objetiva?
Dra. Flávia Tanaka: Com certeza, o tabu e o preconceito contra pessoas portadoras de transtornos mentais, a chamada Psicofobia, é um desafio a ser enfrentado pelo profissional da área de saúde mental e pelos pacientes. A percepção de que a literatura ficcional, não ficcional e a imprensa podem influenciar a motivação para um comportamento suicida é bem antiga.

Por exemplo, no século XVIII, o famoso escritor alemão Goethe, após lançar seu romance “O sofrimento do jovem Werther” precisou se retratar em público sobre a onda de suicídio em jovens após lerem sua obra. Muitos jovens foram encontrados vestidos com roupas semelhantes ao do protagonista Werther, adotaram o mesmo método de suicídio e o livro foi encontrado no local de suas mortes.

Nesse romance, o protagonista vivencia uma paixão não correspondida e impossível e decide tirar a própria vida. Este fenômeno originou o termo “Efeito Werther”, usado na literatura médica para se referir ao possível efeito de “contágio” associado a alguns episódios de suicídio. Portanto, deve-se evitar a romantização do ato ou a “heroicização” do falecido, como se fosse um ato de coragem. Outras expressões como “ato de livre arbítrio” ou “compreensível” também devem ser evitadas.

Quais cuidados precisamos ter ao falar de suicídio?
Falar sobre um tema tão delicado envolve o respeito à privacidade dos familiares enlutados e à sua capacidade de resiliência, o respeito pela memória da vítima em si e o trabalho informativo dos meios de comunicação em estimular estratégias de prevenção, quebra de tabus e mitos.

Ao falarmos sobre suicídio, deve-se ressaltar a provável colaboração de algum transtorno mental de base no desenlace fatal (já que em 96,8% dos casos, havia um transtorno mental de base), a empatia e o incentivo à busca de ajuda em saúde mental. Julgar os familiares que ficam de “descuidados” ou “desatentos” e julgar a própria vítima de “fraca” ou “covarde” é contraproducente e aumenta ainda mais a dificuldade em se falar sobre o tema.

Fotos, descrição detalhada do método e todo sensacionalismo envolvido são nocivos e desrespeitosos à vida humana. É útil que a imprensa local forneça nas reportagens uma relação de lugares onde ajuda pode ser obtida (CAPS, Unidades Básica de Saúde, profissionais e outras instituições), relatos de pessoas que tentaram tirar a própria vida, mas que hoje vivem com boa qualidade de vida após superarem as dificuldades e perceberam a inadequação da tentativa de suicídio que realizaram, história de pessoas para as quais a ajuda correta evitou um desfecho trágico, os recentes avanços dos tratamentos dos transtornos mentais, desmistificar mitos como “depressão não existe”, “isso é coisa de gente fraca”, “isso é falta de lote para carpir” ou “isso é falta de Deus no coração”.

Existem, também, alguns mitos em relação ao comportamento suicida, como por exemplo a ideia de que as pessoas que ficam ameaçando se matar não vão realmente cometer suicídio, ou “quem quer se matar se mata mesmo, sem ficar anunciando”. Com relação a esses “alertas”, quais são os sinais que a família ou as pessoas próximas devem observar para poder ajudar quem está na iminência de cometer um ato extremo? Geralmente a pessoa que pensa em tirar sua vida costuma dar sinais?
Sim, existe uma série de sinais de alerta e fatores de risco ligados ao comportamento suicida. A presença de algum transtorno mental (principalmente Depressão, Transtorno Afetivo Bipolar e Dependência ao álcool ou a outra substancia química) e tentativas prévias (geralmente, para cada suicídio consumado, houve anteriormente uma média de 13 tentativas) são os principais fatores de risco.

Falas que demonstram desesperança, desespero ou desamparo como “eu desejaria nem ter nascido”, “eu gostaria que a vida me levasse”, “eu preferia estar morto”, comportamentos como acúmulo de comprimidos, esconder objetos pérfuro-cortantes, armas e cordas, comportamentos de “despedida” como bilhetes ou mensagens em redes sociais, doação de posses importantes, testamentos, ligações incomuns para parentes ou amigos dizendo “adeus" como se não fosse vê-los outra vez, são outros exemplos clássicos de sinais de alerta.

Eventos estressores como desemprego, falência, divórcio ou perda de alguém próximo, doença crônica, histórico de abuso físico, sexual e psicológico na infância também estão associados ao aparecimento de pensamentos suicidas. Automutilações em crianças e adolescentes, absenteísmo escolar e queda de notas e engajamento escolar são os fatores de alerta voltados ao público Infanto-juvenil.

Comentários que parecem esconder um motivo oculto como “quero acabar com este sofrimento”, “quero descansar” ou “quero dar um fim na minha dor” devem ser levados muito a sério. Levando em consideração que a OMS estima que 90% dos suicídios têm prevenção, deve haver um incentivo e esclarecimento para a leitura correta e pertinente destes fatores de alerta e quebra do estigma.

O assunto é amplo e importantíssimo. Por isso, na próxima semana vamos abordar novamente este tema.


*O texto foi publicado originalmente na Coluna da Gabi, no jornal impresso desta quinta-feira (10), como parte da campanha "O que me faz feliz?". Casada e com dois filhos, Gabriela Weihermann é sócia da MaJo Babies. Escreve semanalmente para A Gazeta. 

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