Geral

12/09/2020 12:56

SETEMBRO AMARELO

Regiões e aspectos culturais podem potencializar as tentativas suicidas

LAYRA OLSEN / JORNAL A GAZETA

Psicólogo cita alguns pontos que podem prevenir os casos

Layra Olsen - layra@gazetasbs.com.br

São Bento do Sul

Por razões diferentes, ou não, muitas pessoas já pensaram seriamente em dar um fim a própria vida. No Brasil, os casos têm avançado drasticamente, mas ainda assim o assunto segue escondido e pouco discutido. Talvez os dados não sejam tão conhecidos porque, infelizmente, o suicídio vem acompanhado da falta de políticas públicas, da ignorância e, principalmente, do silêncio.

Localidades serranas, intolerância à frustração, rigidez e culpabilidade, agrotóxicos, questões genéticas e hormonais, genealogia, enfim. Uma série de elementos potencializa as tentativas suicidas.

Em São Bento do Sul, segundo o psicólogo, professor e suicidólogo, Sidinei Farias, a força do ambiente imprime um temperamento melancólico e uma cultura voltada para a introspecção. “A ausência de vitamina D, a pouca exposição ao sol, o clima, a descendência europeia. É uma cultura da rigidez, que trabalha com a culpa. Especialmente entres homens. Eles possuem uma dificuldade maior em entrar em contato com seus sentimentos”, analisa.

Públicos e causas
Pessoas de todas as idades e classes sociais cometem suicídio. Na juventude, são mais recorrentes os casos de automutilação. Os motivos, conforme Sidinei, podem estar atrelados às adversidades do mundo real. “Existe uma cobrança, um peso, um ideal de sucesso e êxito profissional e estudantil muito grande. Só que a realidade é mais complexa. Exige luta, tolerância e os jovens estão cada vez menos tolerantes e apresentando mais dificuldades para trabalhar suas emoções”, reflete.

Nas festas de final de ano criam-se promessas que na realidade não acontecem. Além disso, a pressão e a expectativa gerada pelas redes sociais são utópicas, fomentando as frustrações. “Vivemos numa sociedade do cansaço, da positividade e do espetáculo. Temos que ter tantas metas, estar se renovando e atingir tais habilidades”, elenca.

O comportamento suicida ainda é notado de forma acentuada na terceira idade. Os motivos são distintos: problemas de saúde, isolamento social causados pela viuvez, separações, distanciamento dos filhos, perda de produtividade, além da depressão e doenças crônicas. “O idoso entra num sentimento de finitude, de incompetência. Então, ele vai se reservando. Percebe que não é valorizado socialmente, ainda mais com as novas tecnologias, com esse mundo voltado a subjetividade e pouco às relações”, comenta.

Prevenção
O suicídio sempre existiu e a prevenção também existe, desde que haja condições mínimas para oferta de ajuda. Acima de tudo, é preciso deixar de ter medo de falar sobre o assunto, derrubar tabus e compartilhar informações ligadas ao tema, não apenas durante o Setembro Amarelo. “Falar possibilita ressignificar-se e fortalecer-se. Colocar "terra no mato", faz com o que o mesmo venha com mais força. Por isso, a importância de verbalizar e não sufocar os lutos”, alerta.

Uma rede de apoio tende a funcionar a partir da atuação de profissionais qualificados e especialistas na escuta. Quando o paciente não fala, é preciso entender o significado daquele silêncio. “Há muitos tipos de silêncio: de desinteresse, de introspecção, de luto, de perdas, de frustração, de temperamento, de estilo de personalidade”, salienta.

Os medicamentos são importantes em alguns casos, contudo, podem anular os lutos. “Precisamos viver nossos sentimentos e os remédios muitas vezes aprisionam. Por isso, o ideal é desenvolver um trabalho interdisciplinar entre todas as áreas, sem que ninguém se sinta invadido. Todos nós corremos para a mesma finalidade, que é a defesa da vida e a garantia de direitos humanos”, reforça.

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