Geral

19/03/2021 18:00

UM ANO DE BATALHA

Quem está na linha de frente encara estresse, tensão e avanço da pandemia

ANNA CAROLINA AZÊDO / JORNAL A GAZETA

Profissionais da UTI relatam como foi o preparo do espaço para receber pacientes

Layra Olsen - layra@gazetasbs.com.br

São Bento do Sul

A Covid-19 se espalhou exponencialmente e colocou em evidência alguns profissionais, em especial os da saúde. Há doze meses, desde que a Organização Mundial de Saúde (OMS) decretou a pandemia, eles têm sido gigantes incansáveis em meio a rotina desgastante, as dificuldades e a angústia do que ainda está por vir.

Quando os primeiros casos foram notificados no Brasil, os hospitais tiveram que correr contra o tempo para se organizar e criar leitos diante da escassa infraestrutura, a fim de garantir um atendimento rápido e eficaz. Ninguém sabia ao certo como proceder, o perfil dos contaminados e como tratar de forma eficiente os casos que evoluem para a forma grave da doença.

À médica pneumologista, Sabrina Bollmann Garcia Schwingel, ficou delegada a função de coordenar o setor de Covid-19 do Hospital e Maternidade Sagrada Família. Prevendo a entrada de pacientes infectados, o primeiro passo foi delimitar áreas de isolamento. “Tivemos que diminuir os leitos de internação geral por conta disso e também fomos atrás de Equipamentos de Proteção Individual (EPI’s)”, conta. Sem recursos suficientes garantir um grande estoque de insumos, a instituição contou com a ajuda da comunidade local.

Somente em maio chegou o primeiro paciente à casa de saúde com diagnóstico positivo para o coronavírus. “Tivemos dois meses para se educar e aperfeiçoar os métodos, especialmente o autocuidado”, revela.

Desde então, o trabalho tem sido exaustivo. A equipe hospitalar determinou um fluxograma dentro dos critérios de internação. “Todas as tomografias passavam por nós. Com isso, decidíamos se a pessoa iria para o isolamento ou não. Isso implica uma responsabilidade muito grande, pois, se você errar, pode colocar outras pessoas em risco”, comenta.

Sabrina coordena o setor de Covid-19 do hospital

Quando o primeiro óbito foi confirmado, os profissionais viram a dimensão da Covid-19. O paciente não residia em São Bento do Sul. Ele ficou duas semanas na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) e, em determinados momentos, apresentou melhoras. “O pior foi a comunicação com a família. O fato de não poder ver, não poder velar”, diz.

O procedimento mais doloroso, sem dúvida, é o processo de intubação. “A pessoa sabe que está piorando, das chances de óbito”, cita. Normalmente nestas circunstâncias o paciente pede para conversar com familiares por meio de videochamada antes do procedimento. “É um momento bem difícil. Hoje tentamos postergar um pouco, mas chega um momento que precisa fazer”, explica.

Agravamento

Em muitas cidades brasileiras, a crise se instalou já nos primeiros meses de pandemia. Aqui, a situação se tornou excessivamente cruel nos últimos meses de 2020, quando houve um repique da doença – ou segunda onda, e agora. “Fim de ano foi terrível”, confidencia.

Diferentes fatores desencadearam uma alta demanda interna. A ala de UTI, que costumava concentrar 70% de ocupação, passou a ter 100% dos leitos em uso repetidamente. “O problema é que os pacientes ficam muito tempo nesta área, no mínimo três semanas de internação. A rotatividade é muito pequena”, esclarece.

Além da curva crescente de contaminados, o hospital se tornou alvo de questões políticas e tema de comentários nas redes sociais. “Era uma disputa de poder e não tínhamos apoio. O tempo inteiro fomos julgados pela população - e para o mal”, relata.

Já 2021, infelizmente, iniciou com recorde de óbitos. O número de doentes vem crescendo em escala exponencial. Nota-se que o vírus não está mais atingido os idosos. O alvo da vez também são os jovens. “Costumo dizer que é melhor não pegar. Quando você pega, não sabe o que vai acontecer. É imprevisível. Têm estatísticas, porém, não é uma matemática”, alerta.

Jaqueline fala sobre a importância da paramentação

Cuidados redobrados com EPI’s

Para lidar com um inimigo invisível, o Sagrada Família passou por uma restruturação. O espaço físico foi modificado, os equipamentos ganharam mais visibilidade, a organização virou componente essencial e os profissionais, de todas os setores, assumiram o protagonismo diante de uma sobrecarga de pacientes graves e da alta transmissibilidade do SARS-CoV-2.

Em todas as interfaces, houve mudanças em dinâmicas de grupo e na forma de atuação, sobretudo no que diz respeito a paramentação e desparamentação. Na UTI, para mitigar o risco de infecção de membros da equipe, foi necessário uma adesão estrita ao equipamento de proteção individual. “Isso é extretamente importante, pois nos previne e nos protege”, destaca a coordenadora de enfermagem do setor, Jaqueline dos Santos Rodrigues.

Cada acessório tem que ser manuseado de forma correta para garantir a própria proteção e a assistência correta ao paciente. “Colocar touca, protetor facial, máscaras, luvas, avental. Quando trocamos de atendimento, tem que retirar tudo, fazer a higiene das mãos com álcool em gel ou água e sabão”, conta.

Esses ajustes nos protocolos resultaram num ambiente mais seguro. Em doze meses, poucos profisisonais positivaram para a Covid-19. E, ainda, presume-se que as contaminações ocorreram fora da unidade hospitalar. “É um orgulho saber que os profissionais se adaptaram com a rotina, apesar de ser extremamente pesada e exaustiva. Mudou muito aqui dentro em relação ao nosso processo de trabalho, mas é satisfatório saber que as nossas medidas têm sido eficazes”, avalia.

Importante aliada

O atendimento hospitalar não se resume somente a médicos, enfermeiros e técnicos de enfermagem. Outro grupo, discreto, atua de maneira integrada no acompanhamento dos pacientes que chegam com Covid-19, tratando desde as complicações respiratórias até as diversas sequelas deixadas pela doença: os fisioterapeutas.

Na UTI, especialmente, a presença desses profissionais é imprescindível, sendo um diferencial importante também na prevenção e reabilitação da capacidade motora depois da alta hospitalar. Como o coronavírus costuma atacar o trato respiratório, muitos necessitam de suplementação de oxigênio. E é nesse momento que a fisioterapia se torna uma grande aliada na busca pela estratégia mais adequada, invasiva ou não.

As condutas adotadas são individualizadas, variam conforme o quadro clínico, já que a doença não segue um padrão e, muitas vezes, se beneficia das comorbidades existentes. O trabalho começa com os primeiros cuidados na administração de oxigênio, no ajuste da intubação, se necessário, e posteriormente na interrupção e desmame do suporte ventilatório.

Um dos estágios mais delicados é a intubação. Os pacientes geralmente ficam muito tempo em ventilação mecânica, sedados, e acabam perdendo força. Dessa forma, a atenção se volta a manutenção da vida para que ele tenha condições de saúde e o mínimo de perdas. “Para nós, é um desafio muito grande cuidar desse pulmão para não causar lesão e agravar o quadro”, declara a fisioterapeuta, Miranda Bail.

Miranda acompanha os pacientes com complicações respiratórias

Outro desafio, segundo ela, é o processo de desmame, em que o infectado sai da ventilação artificial para a ventilação espontânea. A partir daí, vem a recuperação física e motora. “Começa desde o se movimentar no leito, sentar à beira da cama, levantar, ficar em pé. Só isso já é uma demanda muito grande para esses pacientes”, salienta.

Após a alta, o acompanhamento deve continuar. Tanto no serviço público quanto privado, segundo Miranda, a reabilitação cardiopulmonar é sempre indicada para completo restabelecimento. “Estamos fazendo um trabalho bem importante. São pacientes muito graves e entendemos que essa gravidade é um fator de risco para levar ao óbito. E quando você vê um óbito, outro óbito, afeta”, comenta.


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