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06/02/2020 09:17

SAÚDE EM ALERTA

Perguntas e respostas: tire dúvidas sobre a morte de bugios por febre amarela

ANNA CAROLINA AZÊDO / JORNAL A GAZETA

Ana Carolina diz não ser possível estimar quantos macacos já morreram

Layra Olsen - layra@gazetasbs.com.br

São Bento do Sul

A veterinária e professora da Unisociesc, Ana Carolina Fredianelli, esteve em A Gazeta, quarta-feira (5), para falar sobre a circulação do vírus da febre amarela em ambientes silvestres e o impacto causado aos macacos. Ela participou de uma transmissão ao vivo no Facebook, comandada pelos jornalistas André Lima e Anna Carolina Azêdo.

Somente neste ano já foram encontrados 125 bugios mortos na região. Em São Bento do Sul e Piên, testes confirmaram que dois animais faleceram em decorrência da doença, mas estima-se que a imensa maioria tenha morrido pelo mesmo motivo. Acompanhe, na sequência, alguns dos questionamentos feitos durante a entrevista, que inicia a partir de 3:07.

  1. Por que o vírus da febre amarela está presente na região?
  2. Como o vírus era mais frequente na Amazônia, o desmatamento pode ter influenciado?
  3. O vírus é transmitido por mosquitos que atacam principalmente primatas. Como o ser humano contrai a doença?
  4. Como o vírus age no bugio?
  5. Qual o impacto da morte dos bugios para a biodiversidade da região?
  6. Por que o Brasil não vacina os macacos?
  7. Como é feito o tratamento do animal infectado?
  8. Como proceder ao encontrar um bugio doente ou morto?
  9. Como é feito o teste para confirmar a febre amarela?
  10. Na região foram encontrados vários macacos mortos. Podemos afirmar que a maioria morreu pelo vírus da febre amarela?
  11. Tem como estimar quantos bugios já morreram?

Por que o vírus da febre amarela está presente na região?
O vírus da febre amarela é originário da África e veio há muitos anos para o Brasil. Quando chegou aqui, atingiu principalmente a região Norte e a Amazônia. Naturalmente, esse vírus foi se espalhando pelas áreas de mata, por passagens de mosquitos e também pela infecção de pessoas com febre amarela.

Tivemos casos no Rio Grande do Sul, no Sudeste e, com isso, o vírus foi se disseminando. Se avaliarmos os últimos surtos, percebemos que as regiões próximas de São Bento já tinham casos confirmados de febre amarela em primata. Era só uma questão de tempo para que o vírus chegasse até nós.

Como o vírus era mais frequente na Amazônia, o desmatamento pode ter influenciado?
Sim. Não apenas o desmatamento na Amazônia, mas também aqui na região. Uma das medidas de combate a diversas zoonoses, entre elas a febre amarela, é justamente manter a natureza intacta. Evitar desmatamentos não autorizados, preservar as florestas e os cursos d’agua e conservar a saúde da natureza são extremamente importantes para a saúde humana. Normalmente não pensamos nisso, as cidades estão crescendo, estamos poluindo cada vez mais, desmatando cada vez mais e, consequentemente, a fauna sofre.

O vírus é transmitido por mosquitos que atacam principalmente primatas. Como o ser humano contrai a doença?
A febre amarela é transmitida por mosquitos de dois gêneros principais: Haemagogus e Sabethes. Eles são responsáveis pela fase silvestre da doença, ou seja, o mosquito infectado com o vírus pica os macacos, eles morrem ou desenvolvem imunidade contra o vírus, e o ciclo da doença continua na área rural.

O grande problema é que, como o homem vem desmatando e entrando em mata para caçar (que é uma atividade ilegal), acaba se aproximando muito desse ambiente, reduzindo esses espaços e se expondo a esses mosquitos. E outra, com menos macacos disponíveis, os mosquitos não têm como se alimentar dos primatas. Então, basta uma pessoa passar por essas áreas para ser picada também.

Esse ser humano pode levar alguns dias para apresentar os sinais da doença e, ao retornar para a cidade, pode ser picado por outro mosquito, que é o Aedes aegypti. Desta forma inicia o ciclo urbano de febre amarela. Sem o macaco, que é o sentinela, e florestas preservadas, automaticamente ficamos mais expostos à doença. Costumo dizer que os macacos são nossos anjos da guarda, quando eles começam a morrer, sabemos que está imergindo um outro ciclo de febre amarela.

Como o vírus age no bugio?
O vírus provoca febre, mal estar, dor no corpo, dores de cabeça, pele e mucosas amareladas. Quando a doença está avançada e o animal quase entrando em óbito, ocorrem hemorragias, insuficiência renal e danos hepáticos graves.

Os macacos desenvolvem o quadro da febre amarela da mesma forma que o ser humano, porém de maneira mais rápida. Geralmente, o animal evolui para óbito em três dias. A doença é muito mais letal para os primatas que temos aqui na região. Apenas algumas espécies conseguem sobreviver, como o macaco-prego. Ao contrair a doença, ele desenvolve e gera imunidade para a vida toda. Aqui temos mais mortes porque é uma espécie extremamente sensível (bugios).

Qual o impacto para a biodiversidade?
O bugio é uma espécie que se alimenta principalmente de folhas e frutos. Quando eles ingerem frutos, tornam-se disseminadores de sementes. Isso significa que durante as andanças, os animais defecam sementes e plantam novas arvores, mantendo a floresta intacta.

Sem a presença desses primatas, sentimos diretamente o impacto da qualidade da floresta. Perdemos ambientes de mata e nos tornamos alvos de diversas doenças, como a febre amarela. São doenças que podem circular na fase silvestre e, se não tivermos o ambiente saudável, migram para a área urbana.

Por que o Brasil não vacina os macacos?
Para desenvolver uma vacina para os macacos é necessário muita pesquisa. Isso envolve contratação de pessoal e verba. Já temos algumas coisas desenvolvidas nesta área, mas não sabemos como a vacina funcionaria exatamente no organismo desses animais, se ao vacinar ele desenvolveria imunidade ou acabaria morrendo.

Outra questão é o manejo. Os primatas são muito inteligentes. É muito difícil chegar até essa população e atraí-los para uma gaiola, por exemplo. Em São Paulo houve tentativa de captura desse animais para monitoramento de febre amarela. Os profissionais levaram cerca de seis dias para pegar um grupo pequeno de saguis. É demorado, envolve um custo muito grande e pessoal, isso sem ter a certeza se irá funcionar.
Neste momento, portanto, para prevenir, o ideal é vacinar as pessoas. E, num segundo momento, recuperar essas espécies.

Como é feito o tratamento do animal infectado?
Normalmente quando encontramos o macaco, a doença está bem avançada. O animal já caiu da árvore e está deitado no chão. Não tem muito o que fazer. A Vigilância normalmente aguarda que ele entre em óbito para fazer a necropsia e a coleta de sangue para enviar a um laboratório.

Como proceder ao encontrar um bugio doente ou morto?
Qualquer animal silvestre, ferido, doente ou morto, não deve ser manipulado. Além da febre amarela, existe outras zoonoses que podem estar presentes. O ideal é permanecer longe desses animais e acionar a Vigilância Sanitária. O aviso deve ser feito de forma rápida, especialmente se um filhote estiver junto ao animal. Existe uma pequena chance dele não ter contraído a doença e, assim, podemos recuperá-lo, utilizá-lo para reprodução e depois introduzir novamente nas florestas. 

Como é feito o teste para confirmar a febre amarela?
Geralmente são coletados pedaços de fígado, rim, cérebro, pulmão e outros órgãos. Essas amostras precisam ser tiradas em até 24 horas após a morte do animal. Se o macaco está vivo, é possível coletar o sangue. Neste caso, é feito a centrifugação para separação do soro, que é congelado e enviado à laboratório. Em Santa Catarina, os exames são feitos pelo Laboratório Central de Saúde Pública (Lacen). O problema é que ele está sobrecarregado e as amostras precisam ser tratadas. O sangue também passa por análises genéticas. O procedimento, em si, demora pelo menos 30 dias. 

Na região foram encontrados vários macacos mortos. Podemos afirmar que a maioria morreu pelo vírus da febre amarela?
Acredito que sim. Os bugios que foram coletados aparentavam ter uma boa condição física. Como a febre amarela mata muito rápido, não dá tempo do animal emagrecer e desenvolver outras lesões. A maioria estava 100% saudável. Claro, pode ser que alguns foram atropelados ou brigaram em busca de acasalamento. Mas, como o número é grande, é possível que a causa seja a febre amarela. 

Tem como estimar quantos bugios já morreram?
Não tem como fazer uma estimativa. Acredito que o que foi coletado é uma minoria, pois estão próximos de áreas rurais, de fazendas. Temos áreas verdes muito maiores e que jamais saberemos. Provavelmente o número de mortes de primatas por febre amarela é bem maior do que foi divulgado. 

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