Geral

25/03/2021 18:24

DOR DA PERDA

"E agora, Ceiça?": filha relata momentos antes da mãe morrer de Covid-19

ANNA CAROLINA AZÊDO / JORNAL A GAZETA

Conceição era médica, pastora, capelã e conselheira

Anna Carolina Azêdo - anna@gazetasbs.com.br

São Bento do Sul

Sexta-feira, 27 de novembro de 2020, à 0h42. “Bom, eu não tava respondendo porque queria que seu pai chegasse em casa pra falar com você. A mãe está bem. Já me sinto melhor. Eu realmente estava com muita falta de ar e estava sendo bem difícil. Eles fizeram a tomografia e o pulmão está com uma área de comprometimento, aí eles acharam melhor eu ficar na UTI para ficar monitorada. Eles já me medicaram e minha respiração já está bem melhor. Fique bem e tranquila, tá bom, meu amor? Fique com Deus. Te amo, tá?”.

Essas foram algumas das palavras ditas em um áudio do WhatsApp pela minha mãe, a Conceição Lourenço Azêdo ou doutora e pastora Conceição. Eu, como tenho direito de filha, chamarei-a neste texto pelo apelido: Ceiça. Prefiro assim. Nos falávamos no mesmo dia em que ela deu entrada na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital Sagrada Família. Faziam poucas horas que tínhamos nos visto pela última vez. E mal sabia eu que era realmente a última vez que veria os olhos grandes e verdes da Ceiça.

Conversamos pouco, pois ela estava cansada. Quando me viu, por volta das 19 horas do dia 26, começou a chorar. Perguntei se estava melhor, e a resposta foi negativa. Disse que iria ao hospital para fazer a tomografia e ser medicada. Enquanto falava, eu fazia carinho no braço dela. Era triste demais vê-la daquela forma. Ficar em pé estava cansando-a e, embora não fosse a vontade dela, o desânimo era mais forte. “Chama seu pai. Eu preciso achar uma cadeira para sentar”, disse. Chamei. E depois de alguns minutos lá foram eles para outro lugar. E assim foi a nossa despedida: curta, inesperada e sem qualquer tom de despedida. Que saudade da Ceiça.

Primeiro dia

O primeiro dia de internação foi o melhor de todos. Tudo fluindo. Ela estava faladeira e animada. Mandou até foto do almoço. “Arroz, frango e chuchu. Em tudo dai graças”, brincou, já que não gostava de chuchu. A expectativa dos médicos era que ela estivesse em casa em até três dias. Apesar do otimismo, estávamos todos tensos. Aquilo tudo parecia uma eternidade. A vontade de chorar era gigantesca.

Foto do almoço no hospital enviada para a filha

No sábado, dia 28, minha mãe me ligou às 8h53. Se a conversa durou três minutos, posso dizer que durou demais. Perguntou algumas coisas e já quis desligar. Achei muito estranho, mas não contestei. Desligou e não falou mais nada. Mandei mensagem quase duas horas depois perguntando como ela estava. “Estou com um pouco de falta de ar”, respondeu, curta e direta. Foi assim o dia inteiro. A situação não estava normal. Quando questionávamos se estava melhorando, respondia que sim. Mas nós sentíamos que aquilo era só para não nos preocupar. O dia seguinte, o domingo, foi pior ainda. Mais curta e direta. Visualizava e demorava para responder. Ela disse para o meu pai que ficava cansada em responder simples mensagens.

Chegamos no dia 30, segunda-feira, a nossa despedida. Como sabia da dificuldade dela em responder mensagens, nem mandei mais nada. Então, às 14h42 recebi um áudio. Meu coração apertou demais em ver a notificação. Que saudade eu estava da minha mãe. “Oi. Me perdoa. A mãe não está conseguindo responder você, mas é que está difícil para mim. Eu sei que vai ficar tudo bem. É um processo que estou tendo que passar. Quando a mãe não te responde, é porque ela não consegue, está bom, minha filha? Deus te abençoe. Eu te amo, eu te amo demais”, disse, aos prantos. Que dor. Que vazio.

Intubação

O dia 1 de dezembro trouxe uma das piores notícias que já ouvi: minha mãe havia sido intubada. A Ceiça, a minha Ceiça respirava por aparelhos. Dá para acreditar? Acho que a ficha até hoje não caiu para mim. Começamos, então, uma jornada composta por dias tristes, intensos e angustiantes. Ela realmente estava entre a vida e a morte. O meio-dia, horário que sempre nos encontrávamos para almoçar, virou um momento melancólico, já que o hospital ligava para contar como ela estava. Altos e baixos diários. Já que a voz havia sido calada, o corpo gritava. Os níveis subiam e desciam intensamente. E nós íamos juntos nessa montanha-russa, cansados e sobrecarregados.

Até que o dia 9 de dezembro chegou com a notícia de que a minha mãe morreu. A Ceiça morreu. A Ceiça da Anna Carolina, do Raul, da dona Nicinha. A Ceiça pastora, médica. A Ceiça amável, comprometida, determinada. José que me perdoe, mas… e agora, Ceiça? Ela virou estatística e foi parar nos jornais de todo país. “Médica morre com Covid-19 em Santa Catarina”, diziam as manchetes. Que pesadelo. Uma doença tirou a minha mãe de mim em duas semanas.

Mesmo após a morte, Ceiça continua me ensinando. É incrível. Ela me mostrou que a vida terrena é passageira, mas que vale a pena construí-la dignamente e exemplarmente. Esse é o legado. Se tinha orgulho em dizer que era filha dela, hoje tenho ainda mais. Que trajetória brilhante. Que profissional incrível. Que pastora zelosa. Esse é legado dela, que deixa frutos e ecoa por todos os cantos.

O corpo da Ceiça não está mais aqui. A risada alta e escandalosa dela foi calada. Os nossos cafés de fim de tarde foram interrompidos. Entretanto, os ensinamentos ficaram. O testemunho ficou. O exemplo ficou. A saudade também.

E agora, Ceiça?


ANTERIOR | INÍCIO | PRÓXIMA >

Todos os direitos reservados para A Gazeta. Reprodução sem autorização é proibida.

Ajude-nos a manter um jornalismo sério e com credibilidade. Textos e fotos estão protegidos pela legislação brasileira sobre direito autoral. Se quiser repassar a notícia, compartilhe o link.