Geral

02/04/2021 08:34

UM ANO DE BATALHA

Caminhos da fé: Igrejas tiveram que se reinventar durante a pandemia

DIVULGAÇÃO

Paróquia do Centro realizou bênçãos direto nas casas dos fiéis

Matheus Müller - matheus@gazetasbs.com.br

São Bento do Sul

Os templos religiosos viram sua realidade se alterar drasticamente a partir do primeiro decreto de quarentena em Santa Catarina. Se antes os locais viviam lotados, era preciso buscar alternativas para atingir os fiéis à distância, em um momento onde eles mais precisariam de uma palavra de fé e conforto.

O padre Mario Tito Angioletti, responsável pela Paróquia Puríssimo Coração de Maria, no Centro, lembra que fechar as portas da igreja foi um baque grande, ainda mais por ter sido bem na época de preparação para a Páscoa, com tudo pronto e pensado para a data especial. “Não sabíamos nos primeiros dias como agir e o que fazer, e nem o tempo que ia durar. Confesso que pensei que seria de um a dois meses de paralisação”, cita o pároco.

Para manter as atividades da igreja, o caminho foi as redes sociais, ainda que de maneira tímida nas primeiras semanas. “No começo nem pensávamos em investir em equipamento, imaginando que a pandemia passaria rápido. As transmissões eram com celular, um tripé, e um cabo ligando o aparelho a mesa de som”, comenta.

Com o passar do tempo, vendo que a pandemia se estenderia por meses, foi fechado um contrato com uma empresa para instalação de equipamentos de qualidade, possibilitando uma melhor transmissão. Também foi montado um pequeno estúdio na paróquia para realizar transmissões, incluindo o “Programa de Quinta”, espécie de talk show produzido pelo grupo de jovens da paróquia.

Para que os fiéis se sentissem mais próximos da igreja, foram trabalhadas algumas ideias ao longo dos meses. Uma delas foi a benção da cidade, feita da torre da Igreja, que é acompanhada por pessoas do Brasil inteiro pelas redes sociais. “Ficamos sem fazer no período de férias, e recebemos muitas mensagens pedindo pelo retorno”, comenta o padre Tito.

Outra iniciativa muito elogiada foi a fixação das fotos dos fiéis nos bancos da igreja, simbolizando a presença de público no espaço, em período onde a igreja estava fechada. No período de Corpus Christi, o tradicional tapete foi montado apenas com cartazes feitos pelas crianças da paróquia, colocados todos dentro da igreja.

A iniciativa Serenata da Fé foi outra muito comentada, inclusive com repercussão estadual, onde os fiéis eram visitados em suas casas pelo padre junto com poucas pessoas. Todos ficavam na calçada da residência e, de longe, abençoavam aquela família.

O período ainda foi marcado por uma grande procura na assistência social da paróquia. O padre Tito estima que aumentou em 40% o número de famílias atendidas. Além disso, foi preciso reestruturar a equipe, já que as voluntárias da assistência social eram todas do grupo de risco. “Esse vírus fechou muitas portas, mas o espírito santo foi abrindo novos caminhos, o importante é não perder a fé, a esperança, sem desanimar”, encerra.

Confissão no estilo drive-thruConfissão no estilo drive-thru foi uma das ações realizadas pela Paróquia de Oxford

Ações na Paróquia de Oxford

O padre Fábio Bosco, responsável pela Paróquia Nossa Senhora Aparecida, no bairro Oxford, cita que os primeiros dias foram de dúvidas e espanto. Ele lembra que se ouvia muito falar em coronavírus, e que a doença chegou até aqui com uma velocidade acima do esperado, levando a quarentena. “A igreja não foi constituída para viver de portas fechadas, pelo contrário”, diz.

Ele reforça o fato de tudo ter ocorrido bem no tempo de preparação da Semana Santa, a mais importante para o católico. Para alcançar a comunidade, a paróquia passou a investir ainda mais em transmissões, que já ocorriam, mas em menor escala. “Criamos vários eventos para que o fiel pudesse estar ligado conosco. Tivemos um excelente resultado pois nossa comunicação sempre foi forte”, ressalta.

No começo, as transmissões eram feitas via celular, não na Igreja por conta do eco, mas em uma pequena capela na casa paroquial. Com o tempo, a igreja adquiriu equipamentos e também assinou um contrato com uma empresa que instalou câmeras e um sistema de ponta para possibilitar as transmissões.

Isso se converteu em uma grande audiência diária, tendo mais de mil pessoas assistindo cada transmissão produzida. Na benção da imagem de Nossa Senhora Aparecida, foram mais de 2,3 mil pessoas acompanhando ao vivo. “Se pensarmos que há três pessoas assistindo para cada celular, o número de pessoas atingidas é muito grande”, ressalta. Não há uma contabilização atualizada das visualizações das missas e ações transmitidas pelas redes sociais da paróquia, mas acredita-se que já passou de 1 milhão de views.

Para aproximar a paróquia da comunidade, foram realizadas algumas ações no formato drive-thru, onde a pessoa não precisa sair do veículo. Destaque para as confissões realizada na Semana Santa, com um confessionário móvel instalado na rua, onde a comunidade passava com seu carro e se confessava de longe. “Teve uma grande repercussão, saímos na revista Veja, Época, no G1, foi algo muito positivo”, conta.

Já em junho foi realizada uma Festa Junina, onde as pessoas passavam com seus carros por dentro do estacionamento da paróquia para buscar os alimentos típicos da data. Outro grande evento foi a benção dos carros no Dia de São Cristóvão, que reuniu mais de 500 carros em carreata, e todos foram abençoados à distância pelo Padre Fábio.

Volta do público

Conforme a igreja foi abrindo, o público pôde voltar a frequentar o espaço, com capacidade reduzida e respeito aos protocolos definidos. O ápice da volta foi recentemente, na quarta-feira de Cinzas, quando foram montadas quatro tendas de 100 metros quadrados cada, com telões e sonorização, onde mais pessoas puderam acompanhar a missa, respeitando os 25% de capacidade tanto dentro da igreja quanto na parte de fora. “Foram quatro celebrações, todas com um grande público”, destaca.

Assim como no Centro, na Matriz de Oxford aumentou o número de famílias atendidas via Assistência Social. De 74 famílias amparadas antes da pandemia, o número saltou para mais de 100, todas atendidas com as doações feitas pela comunidade. “A primeira lição que fica é a necessidade que temos uns dos outros, que ninguém vive sozinho e precisamos nos ajudar. Acredito que tudo isso deve despertar no coração dos cristãos uma busca maior por Deus”, completa.

cultos no estilo drive-inRefúgio realizou cultos no estilo drive-in por 11 meses

Primeiro Drive-in religioso do país

Enquanto a maioria das igrejas apostou na tecnologia, a igreja O Refúgio buscou a solução em algo retrô, realizando seus cultos no estilo drive-in, com as pessoas em seus veículos, paradas no estacionamento da igreja. Jean Gadotti, pastor responsável pela igreja no município, cita que nos primeiros dias após o decreto da quarentena foram feitas transmissões de casa, direto pela internet.

Porém, logo depois surgiu a ideia de trazer o drive-in para o Refúgio. “Foi algo muito comum nos Estados Unidos nos anos 70 e 80 para cinema, e temos um estacionamento que facilitava isso”, ressalta. Ele conta que no começo os cultos foram em cima de uma caçamba de caminhão, e na sequência foi construída uma plataforma, tornando a iniciativa em algo semanal.

“No terceiro domingo após a quarentena já estávamos no estilo drive-in”, diz. Jean lembra que tem contato com grupos de igrejas de todo o país, onde foi constatado que O Refúgio foi a primeira a trazer esta ideia, replicada por muitos país afora.

Ele lembra que tudo foi pensado para garantir o drive-in sem risco algum. Foi feita uma fileira de carros com luzes e placas dando boas vindas e orientando o público na chegada. Na sequência, os veículos eram posicionados de uma maneira que tivesse uma boa visibilidade para todos. Com o uso de um transmissor de ondas curtas, as pessoas ouviam o culto direto do som do carro, sem precisar abrir as janelas. “Isso também nos ajudou com os vizinhos, não era necessário deixar o som muito alto”, cita Jean.

Durante o período de drive-in, a média era de 100 carros participantes por domingo, com aproximadamente 200 pessoas envolvidas. “Com um feedback sempre muito positivo”, destaca. Para ele, o sucesso se deu pela possibilidade de levar a palavra de Deus de maneira mais próxima.

“É uma integração das pessoas, em um culto online não é possível oferecer isso, desta forma fizemos de tudo para manter o drive-in. Além disso, o drive-in possibilitou receber a todos na igreja, tanto crianças quanto idosos, grupos de risco que podiam participar por estarem seguros em seus carros. Por isso também mantivemos o drive-in por tanto tempo, entendendo que é para todos”, ressalta.

Após 11 meses exclusivamente no estilo drive-in, em fevereiro a igreja voltou com seus cultos internos. O pastor Jean cita que vem dando certo este retorno, e para atingir mais pessoas, vem sendo feitos mais cultos, devido a lotação máxima atual ser de 25% do espaço.

No período de lockdown no fim de semana, a igreja levou seus cultos para segunda e terça-feira, mantendo os encontros presenciais. “A igreja nasceu para ser local, interagir com o bairro, a cidade. Quem impactou o mundo foi Jesus, nós impactamos o nosso vizinho, com um bom testemunho”, completa Jean, satisfeito da evolução e do crescimento presenciados durante o difícil período vivido.


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