Esportes

24/03/2021 17:42

ESPECIAL CORONAVÍRUS

Após longo período parado, veja como o esporte foi afetado pela pandemia

MATHEUS MÜLLER / JORNAL A GAZETA

Peschiski lamenta pelo longo período que os campos ficaram fechados

Matheus Müller - matheus@gazetasbs.com.br

São Bento do Sul

O esporte foi um dos muitos setores afetados pela pandemia. A maioria das práticas esportivas ficou paralisada durante boa parte do tempo nestes 12 meses que se passaram, atingindo milhares de pessoas de todas as idades que tiravam algumas horas da sua agenda semanal para se exercitar.

Nicho que movimenta milhares de pessoas, com diversos campos espalhados pela cidade, o futebol foi um dos setores que sentiu o baque causado pelo vírus. No dia 18 de março de 2020 os campos de society do município já não abriram suas portas, em cena que se repetiria por um longo período.

“Na época se comentava em 30 dias, 60 ou até 90 dias de fechamento, e já achávamos um absurdo, e acabou se estendendo. Foram oito meses, liberou um mês e meio e depois voltou a fechar”, lembra Zeca Pechiski, da Arena Peschiski. A atual liberação veio no início de fevereiro, valendo apenas para os dias de semana, sem jogos nos sábados e domingos.

Diante da dificuldade e das incertezas para o setor, logo após as primeiras semanas de fechamento Zeca organizou um grupo reunindo alguns donos de campos de São Bento, e a partir daí puderam pressionar para o retorno dos gramados. Eles se juntaram a uma iniciativa que reunia representantes de todo o Sul do país, e contrataram um advogado para ingressar na Justiça visando a reabertura dos espaços. “Corremos muito atrás para conseguir a liberação”, lembra.

Ele relata que antes da pandemia, mais de 100 pessoas por dia passavam no campo. “Não sonhava que isso ia acontecer, havia feito negócios e investimentos pensando na renda que não veio”, conta Zeca.

Inclusive, ele precisou vender o seu carro para captar recursos e se manter enquanto o campo não voltava. “Cheguei a pensar em vender o campo, e se não liberasse eu precisaria buscar um emprego para me manter, não estava dando mais”, lamenta. Inclusive, alguns não sobreviveram aos meses sem atividade, citando que conhece pelo menos dois donos de campo que precisaram fechar por falta de recursos.

Regras da volta

O retorno foi possibilitado seguindo uma série de regras. Há aferição de temperatura, cadastros dos atletas com nome completo, RG, CPF, endereço e telefone de contato; e redução de duração dos treinos, de uma hora para 50 minutos. “Esse tempo é para os times saírem e chegarem os novos, sem aglomeração”, cita.

Neste tempo, ainda é higienizado com álcool em gel as traves, materiais de campo e banco de reservas. A idade para prática é de 16 a 59 anos, sem público e com número mínimo de atletas em campo, onde os reservas ainda precisam usar máscara. Os vestiários ficam fechados, e não é repassado coletes para os atletas, que vêm de suas casas já prontos para atuar. “Eles combinam a cor da camisa antes, só vem jogar”, cita.

O proprietário da Arena Peschiski destaca que em todo o período de funcionamento do campo, não foram registrados casos de Covid. “As equipes têm horário semanal fixo, e todas as semanas vêm os mesmos atletas. Queremos nos proteger, e também os atletas que estão aqui treinando. Nós nos comprometemos com esse decreto e precisamos cumprir”, ressalta.

Ele cita que nunca perdeu o contato com os atletas, que o mandavam mensagem diariamente no período de fechamento. “Os atletas sentiram muito a falta, na liberação quase todos os times retornaram com seu horário, tanto que hoje não tenho horários livres dentro do que é liberado”, conta, acreditando que, quando tudo se normalizar, a procura tende a ser ainda maior.

Ele torce para que os campos possam se manter. “Os mercados estão cheios, indústrias trabalhando normalmente, e nós os pequenos que somos os culpados. Não podemos fechar, um novo lockdown pode ser a gota d’água do setor”, completa. No entanto, no dia 23 de março de 2021 o governo suspendeu o esporte recreativo novamente.

Gilmar e Ismael, treinadores das equipes de basquete

Mantendo a motivação

A paralisação das atividades esportivas também atingiu as 20 modalidades ligadas à Fundação Municipal de Desportos (FMD), que movimenta milhares de jovens na cidade. Um dos atingidos foi o basquete, esporte de contato cuja prática ficou inviável com o crescimento do vírus.

Ismael Conde, presidente da Associação São-Bentense de Basquete (ASBB/FMD) e treinador das categorias sub-15 e sub-17, conta que inicialmente também acreditava que a questão seria passageira. “Quando vimos que começou a demorar, com 15 dias aproximadamente já começamos a pensar em repassar treinos via redes sociais”, conta.

Eram repassados vídeos aos atletas para eles replicarem em suas casas, principalmente a parte física e de habilidades. “Procuramos incentivá-los, lembrando que a qualquer momento poderia voltar. Mas infelizmente não tem como manter todos, perdemos muitos atletas”, lamenta. De 2019 para 2020, haviam mais de 100 crianças e adolescentes treinando a modalidade, e hoje acredita-se que este número reduziu de 30% a 40%.

Para manter o grupo motivado, Ismael conta que não faltou conversa. “Temos uma psicóloga que trabalha voluntariamente, então fazíamos reuniões online com os atletas para conversar, saber da rotina. O que conseguimos fazer é tentar se manter na rotina deles semanalmente, para que eles se lembrassem que o basquete não acabou. Essa geração é muito imediatista, se nos afastássemos, perderíamos muito mais atletas. A tendência é se desanimar e sair”, cita.

Dinâmica online

Para manter os atletas motivados, a modalidade chegou a realizar no ano passado uma dinâmica online, com adversário e até arbitragem. Gilmar Andalício, treinador das categorias sub-12 e sub-14, conta que a iniciativa surgiu de um grupo de técnicos de São Paulo, que criou esta dinâmica para trazer mais vontade aos atletas, desmotivados por apenas treinar fundamentos em suas casas.

A ideia é simples. Com duas equipes de 10 atletas dentro de uma sala online de conversa, junto com seus treinadores e inclusive um juiz, eram repassadas técnicas de basquete que eles deveriam cumprir em determinado tempo. Quem executasse a atividade corretamente e dentro do tempo estipulado somava pontos para o seu time.

Os exercícios eram treinados ao longo da semana, para que os atletas chegassem prontos para realizar os desafios com perfeição. “Ainda haviam dois exercícios surpresas, para trabalhar o psicológico dos atletas”, cita Gilmar.

Com a devida liberação dos seus pais, os atletas de até 13 anos realizaram duas partidas online, contra Criciúma. A equipe são-bentense perdeu o primeiro jogo e venceu o segundo, em iniciativa que manteve o grupo unido, ainda que à distância, em um momento de dificuldade. “Foi uma experiência muito valiosa, saímos da monotonia dos treinos individuais”, lembra.

Nesta volta aos treinos do basquete, cada atleta treina de maneira individual, com uma bola previamente higienizada

Volta em outubro

Ismal Conde lembra que depois disso, no final de outubro, ainda houve um período de liberação para a volta dos treinos, que durou aproximadamente um mês, quando tudo foi proibido novamente. “Foi um período importante, tivemos um convívio, os atletas puderam pisar na quadra”, lembra.

A volta atual se deu em meados de fevereiro, e o protocolo seguido tem sido mais rígido do que o elaborado no ano passado. Agora, os atletas não têm contato algum, com atividades somente físicas e técnicas, cada um utilizando a sua bola, higienizada antes dos treinos. Além disso, os atletas são orientados a treinar de máscara, mantendo um distanciamento entre eles. “Esse retorno tem sido essencial para mantermos o vínculo com quem ficou”, ressalta Ismael.

Neste início de trabalho, os treinamentos vêm ocorrendo no Ginásio Annes Gualberto, com equipes mistas, reunindo meninos e meninas, já que se trata de um trabalho individualizado. “Estamos aproveitando os treinos ao máximo para que todos os interessados possam participar”, ressalta.


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