Geral

31/03/2021 16:00

SAÚDE MENTAL

Ansiedade: Efeitos da pandemia podem gerar sensação de medo constante

ANDRÉ LIMA / JORNAL A GAZETA

Psicólogo fala da importância da psicoterapia e cuidados com a saúde mental durante a pandemia

André Lima - andre@gazetasbs.com.br

São Bento do Sul

Preocupação em excesso, tremores nas pernas ou mãos, dificuldade para dormir, suor excessivo, apetite desregulado, tontura e náuseas. Esses têm sido alguns dos sintomas constantes no cotidiano de muitos brasileiros, seja por alguém que está impedido de trabalhar ou simplesmente tem medo de sair de casa e ficar doente. Isso ocorre porque a crise do coronavírus está gerando estresse na população. A constatação é da Organização Mundial da Saúde (OMS), mesma instituição que também indica que cerca de 9% a 15% da população brasileira passa atualmente por algum quadro de ansiedade.

O psicólogo, professor e suicidólogo, Sidinei Farias, acredita que a pandemia tem despertado o sentimento de medo, e esta é a principal sensação que a ansiedade pode causar em uma pessoa. “Estamos o tempo todo em estado de vigilância. Nós fazemos projetos, planos, temos um ideal de felicidade. E quem tem ansiedade precisa ressignificar, reorganizar sua rotina, ter disciplina. Nosso organismo precisa de rituais, de autoproteção, de cuidado, de segurança”, cita.

Ele explica que existem níveis diferentes de ansiedade. Um deles é o mais comum, o da ansiedade generalizada. “Em tudo estou enxergando a antecipação de algo ruim que está por vir, eu estou sentindo como se fosse uma espécie de sufocamento, um nó na garganta”, define. “É como se eu estivesse dando uma raquetada em uma bolinha de pingue-pongue, um pensamento que vem e volta. A ansiedade é isso: um sentimento mal resolvido que tende a voltar”, acrescenta.

Atenção para os pais

Farias acredita que todas as crianças ficaram ansiosas no período de isolamento, após meses sem frequentar o ambiente escolar. Para explicar com detalhes, ele recorre à Síndrome da Cabana. Ela deriva dos países do hemisfério norte, onde pessoas ficavam acampadas na época das nevascas em cabanas por conta do frio, caçando, desenvolvendo algum trabalho. E elas desenvolveram alguns traumas no momento de fazer esse processo de saída da cabana.

Sidinei, que também é professor na rede municipal de São Bento do Sul, diz que percebe essa ansiedade em seus alunos. “Têm crianças que esqueceram a escrita, que estão com a voz muito baixa e não conseguem pronunciar as palavras direito. Não conseguem se situar no tempo, e isso causa uma falta de percepção de sentido”, descreve. Ele alerta que esse comportamento pode desenvolver nos jovens a depressão sazonal, falta de vitamina D por não tomar sol e estresse elevado.

Diante disso, pede que os pais fiquem atentos se os filhos estão muito desmotivados, aos vícios em telas e jogos virtuais. O ideal é incentivá-los a sair mais de dentro de casa, claro, tomando todos os cuidados referentes à pandemia. Os pais também não devem ter receio em buscar ajuda psicológica para tratar esses traumas em crianças e adolescentes, algo que pode afetar o desenvolvimento de suas relações sociais.

Tratamento

Sidinei Farias lembra que o melhor tratamento para a ansiedade e ainda pouco procurado, pois envolve um processo a longo prazo, é a psicoterapia. “As pessoas ainda têm muita resistência, porque elas pensam que é como miojo, ao fazer uma ou duas sessões já é suficiente. Mas é um processo que pode levar um ano, às vezes até dois, até para você perceber se de fato é uma ansiedade mesmo. Demora em torno de seis meses para fechar o laudo e perceber se é mesmo ou não”, explica.

Ele alerta ainda que muitas pessoas acabam caindo no modismo. “Eu posso estar com algumas situações de ansiedade. Aquela ansiedade ela existe, faz parte de nós, é um sentimento. A questão é que são em níveis de intensidade diferentes”, adianta. “Eu fico ansioso com uma conversa, numa entrevista de emprego, na hora de uma prova. Então existem muitos modismos desse transtorno. Por isso preciso de um bom tempo para avaliar o grau de intensidade ou se é uma ansiedade momentânea, talvez causada por uma situação de perda, uma separação”, exemplifica.

Por conta disso, o psicólogo reforça que as dicas encontradas facilmente na internet são técnicas paliativas para tratar a ansiedade. “São exercícios complementares. Elas têm uma importância, têm um resultado, só que é muito momentâneo. Porque quando você faz terapia, você vai muito a fundo. A psicoterapia envolve o autoconhecimento, uma autoavaliação, faz você perceber o teu perfil de personalidade”, descreve.

Aliás, essas dicas de exercícios podem não funcionar para todas as pessoas, e muitas vezes podem desenvolver um sentimento de culpa que agrava o quadro de ansiedade. “Às vezes a pessoa não consegue desenvolver ou praticar aquela dica. Uma dica talvez seja importante para você, mas para outra pessoa não. Então, precisamos avaliar junto e buscar a melhor forma”, completa.

Sete dicas para tratar a ansiedade

1. Atividade física
“Independente de ter a ansiedade generalizada, não podemos abrir mão das atividades físicas. A questão da ginástica, do pilates e outros esportes em geral”, cita. No entanto, Sidinei ressalta que em muitos casos é necessário buscar uma avaliação física para evitar problemas de saúde física.

2. Cuidar do corpo
Em muitos casos, a ansiedade pode trazer reações físicas, como dores musculares. “Você precisa olhar o que o seu corpo quer dizer. Além disso, devemos olhar a dimensão da sua sexualidade, nós temos emoções sexuais que negamos e não falamos sobre. E elas estão aí, de alguma forma aparecendo”, explica.

3. Cuidar da alimentação
“Você deve priorizar os seus momentos de refeição. Também tomar muito cuidado com bebidas que possuem cafeína”, alerta. Durante o trabalho da psicoterapia, o paciente pode ser encaminhado a um nutricionista habilitado para fazer uma avaliação, a fim de aumentar a dieta de proteínas para contribuir com a minimização da ansiedade.

4. Priorizar o ócio criativo
“Nós precisamos aprender a ficar sem fazer nada, acho que isso é muito importante. A pandemia tem nos adoecido muito nisso porque em alguns momentos precisamos aprender a exercitar o tédio”, sugere.

5. Exercícios de meditação
“Existem tipos de meditação, algumas que são exercícios de respiração. Porém, não devemos ficar só nisso, eu preciso buscar o autoconhecimento. Por que eu estou assim? O que está acontecendo comigo? Eu preciso olhar para a minha história, olhar o meu perfil de personalidade. Quanto mais você se reconhece, menos pontos da sua biografia você vai precisar repetir”, explica, referindo-se ao fato da ansiedade trazer à tona sentimentos mal resolvidos.

6. Cuidados antes de dormir
“Precisamos evitar as telas pelo menos uma hora antes de dormir porque elas nos deixam em estado de vigilância e isso dificulta o sono. E não dormir com o celular do lado da cama porque ele tende a potencializar a ansiedade. Eu preciso ver as mensagens, e se alguém não responde eu já fico ansioso, porque nós vivemos no imediatismo”, avalia.

7. Se conectar com a natureza
“Eu preciso fazer com que eu domine a tecnologia e não que ela me domine. Nós tendemos a dizer que somos uma geração muito conectada, mas precisamos nos conectar mais com a natureza também. Temos um déficit de natureza muito grande. Precisamos aprender a nos desligar, a nos sintonizar com nós mesmos, fazer saídas ao campo, para lugares rurais e com pouca aglomeração, e aprender a exercitar o ócio criativo”, finaliza.


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